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Imunoterapia no Câncer: o que é, como funciona e para quem é indicada

Por Dra. Wanessa Apolinário Martins, Oncologista Clínica | CRM-GO 14359 | RQE 9706

Nos últimos anos, a imunoterapia passou a ocupar um espaço cada vez maior nas conversas sobre tratamento oncológico. Pacientes chegam ao consultório tendo pesquisado o termo, ouvido de conhecidos ou lido em notícias sobre avanços promissores. E junto com a informação, chegam também as dúvidas, as expectativas e, às vezes, os equívocos.

Como oncologista clínica, acredito que entender o que é a imunoterapia, como ela funciona e, principalmente, para quem ela é indicada, faz parte do direito de qualquer pessoa que está passando por um tratamento oncológico.

O que é imunoterapia?

A imunoterapia é uma modalidade de tratamento que age sobre o próprio sistema imunológico do paciente para que ele reconheça e combata as células cancerígenas com mais eficácia.

Para entender como ela funciona, é preciso entender primeiro por que o sistema imunológico muitas vezes não consegue eliminar o câncer sozinho.

O sistema imunológico é projetado para identificar e destruir células anormais, o que inclui células tumorais. O problema é que muitos tumores desenvolvem mecanismos para escapar dessa vigilância, ativando proteínas que funcionam como “freios” nas células de defesa e impedindo que elas reconheçam e ataquem o câncer.

A forma mais comum de imunoterapia hoje, conhecida como inibidores de checkpoint imunológico, atua exatamente nesses freios: ao bloqueá-los, permite que o sistema imunológico volte a identificar e combater as células tumorais. Quem executa grande parte desse ataque são as próprias células de defesa do paciente, não um medicamento que age diretamente sobre o tumor, como acontece com a quimioterapia.

Imunoterapia e quimioterapia: qual a diferença?

Essa é uma das perguntas mais frequentes no consultório, e a resposta ajuda a entender melhor o papel de cada tratamento.

A quimioterapia utiliza medicamentos que atacam células em divisão rápida, o que inclui as células tumorais, mas também afeta células saudáveis. Daí vêm efeitos colaterais como queda de cabelo, náusea e fadiga intensa.

A imunoterapia não age diretamente sobre o tumor. Ela atua sobre o sistema imunológico, modificando a forma como ele responde ao câncer. Os efeitos colaterais são diferentes dos da quimioterapia e podem envolver inflamação em órgãos como pulmões, fígado e intestinos, porque o sistema imunológico, uma vez ativado, pode agir em excesso. Por isso, o acompanhamento médico é indispensável durante todo o tratamento.

Para quem a imunoterapia é indicada?

Aqui está o ponto mais importante deste artigo: a imunoterapia não funciona para todos os tipos de câncer, nem para todos os pacientes com o mesmo diagnóstico.

A indicação depende de uma avaliação que considera vários fatores:

O tipo e o estágio do câncer

Alguns tipos de câncer respondem melhor à imunoterapia do que outros. Melanoma, câncer de pulmão não pequenas células, câncer de bexiga, linfoma de Hodgkin, câncer renal e tumores colorretais com instabilidade de microssatélites (MSI-H) são exemplos com resposta mais estabelecida na literatura.

Os biomarcadores do tumor

Exames como a expressão de PD-L1, a instabilidade de microssatélites (MSI) e a carga mutacional tumoral (TMB) ajudam a estimar a chance de o tumor responder à imunoterapia. Mas nenhum exame consegue prever a resposta com certeza absoluta. São ferramentas que orientam a decisão, não que a determinam.

O histórico clínico do paciente

Tratamentos anteriores, condições de saúde pré-existentes e o estado geral do paciente influenciam diretamente na indicação e na forma de conduzir o tratamento.

A decisão de incluir imunoterapia no plano terapêutico é sempre individualizada. Dois pacientes com o mesmo tipo de câncer podem ter indicações completamente diferentes, dependendo das características específicas de cada tumor e de cada organismo.

O que esperar durante o tratamento com imunoterapia?

A imunoterapia é administrada, na maioria dos casos, por via endovenosa, em sessões que ocorrem a cada duas, três ou quatro semanas, dependendo do protocolo.

Os efeitos colaterais variam de pessoa para pessoa e de protocolo para protocolo. Fadiga, alterações de pele, diarréia e reações inflamatórias em diferentes órgãos são possibilidades que precisam ser monitoradas de perto. Em alguns casos, esses efeitos exigem ajuste de dose ou interrupção temporária do tratamento.

Outro ponto importante: a resposta à imunoterapia pode ser diferente da resposta a outros tratamentos. Em alguns pacientes, o tumor pode aparentemente crescer antes de começar a regredir, um fenômeno que precisa ser avaliado com cuidado e não confundido com falha do tratamento.

Perguntas frequentes sobre imunoterapia

A imunoterapia aumenta a imunidade do paciente?
Não exatamente. Ela não fortalece o sistema imunológico de forma geral. Ela atua removendo bloqueios específicos que impediam o sistema imunológico de reconhecer o tumor.

Imunoterapia tem cura?
Não é possível garantir desfecho para nenhum tratamento oncológico. Em alguns casos, a imunoterapia produziu respostas duradouras e completas. Em outros, o benefício foi mais limitado. O resultado depende de muitas variáveis individuais.

Preciso fazer exames específicos antes de iniciar?
Sim. A avaliação de biomarcadores como PD-L1, MSI e TMB é parte do processo de indicação. Esses exames são realizados a partir do material da biópsia.

Imunoterapia está disponível pelo SUS?
Alguns medicamentos já têm aprovação e cobertura, mas o acesso ainda é limitado para vários protocolos. O cenário muda com frequência à medida que novos medicamentos são incorporados.

Posso fazer imunoterapia junto com quimioterapia?
Sim, em muitos casos a combinação é utilizada e tem respaldo em estudos clínicos. A decisão sobre o esquema mais adequado depende do tipo de câncer e das características do paciente.

O que mais importa saber

A oncologia avança muito rápido. Novos medicamentos, novas combinações e novos biomarcadores surgem com frequência, ampliando as opções disponíveis para cada tipo de tumor.

Parte do meu trabalho é acompanhar esses avanços e entender, para cada paciente, quando e como essas opções fazem sentido. Porque a imunoterapia pode ser uma ferramenta poderosa, mas ela é uma ferramenta de um plano maior, construído com base na sua história, no seu tumor e na sua vida.


Aviso importante: Este artigo tem caráter informativo e educativo. As informações aqui apresentadas não substituem a consulta médica individualizada. Para diagnóstico, tratamento e orientações específicas para o seu caso, consulte sempre um médico especialista em oncologia.


Sobre a autora

Dra. Wanessa Apolinário Martins é médica oncologista clínica com atuação dedicada ao cuidado de pacientes com câncer desde 2014. Graduou-se em Medicina pela Universidade Federal de Goiás (UFG) em 2009, com registro profissional no CRM-GO nº 14359. Concluiu Residência Médica em Clínica Médica pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás em 2011, com Registro de Qualificação de Especialista (RQE) nº 8222. Em 2014, concluiu Residência Médica em Cancerologia Clínica pela Associação de Combate ao Câncer em Goiás (ACCG) / Hospital Araújo Jorge, obtendo o RQE nº 9706 em Oncologia Clínica. Desde abril de 2014, integra o corpo clínico do INGOH, atuando no diagnóstico, tratamento e acompanhamento de pacientes com tumores sólidos, sempre com foco em medicina baseada em evidências, atendimento humanizado e tomada de decisões compartilhada com pacientes e familiares.

Importante: este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação médica. Cada caso tem particularidades que só uma consulta pode analisar.

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